Garrafas de vidro e microplásticos: estudo da ameaça oculta

/ /
Garrafas de vidro e microplásticos — uma ameaça oculta nas bebidas
21
Garrafas de vidro e microplásticos: estudo da ameaça oculta

Nova pesquisa mostra: garrafas de vidro podem liberar mais microplástico do que o plástico. Como isso afeta a saúde e o que fazer para evitar o risco — no artigo Open Oil Market.

O microplástico se tornou um poluente ambiental e alimentar onipresente. As menores partículas de plástico podem ser encontradas em todos os lugares — nos oceanos do mundo, no ar, nos alimentos e até mesmo dentro do corpo humano. Apesar da crescente preocupação com o lixo plástico, acreditava-se que o uso de embalagens de vidro para bebidas era uma alternativa mais segura. No entanto, uma nova pesquisa revelou o contrário, identificando um problema inesperado: as bebidas em garrafas de vidro podem conter mais microplástico do que em embalagens plásticas.

Cientistas franceses da agência de segurança alimentar ANSES realizaram uma série de testes com diversas bebidas — água, refrigerantes, chá gelado, cerveja e vinho — acondicionadas em diferentes tipos de embalagens. Seus resultados surpreenderam até os próprios pesquisadores: nas bebidas em garrafas de vidro, foi encontrado um nível significativamente maior de microplástico do que nas bebidas similares em garrafas plásticas ou latas de alumínio. Em alguns casos, o nível de partículas microplásticas no vidro foi até cinquenta vezes maior. Isso coloca em dúvida a opinião consolidada sobre a "pureza" das embalagens de vidro.

Resultados inesperados da pesquisa

A nova pesquisa, realizada pelo laboratório ANSES na França, comparou o nível de microplástico em bebidas populares, dependendo da embalagem. Em cada categoria testada — seja refrigerantes, chá gelado, cerveja ou água mineral — as garrafas de vidro apresentaram a maior contaminação por partículas plásticas. Em média, um litro da bebida em embalagem de vidro continha cerca de 100 micro partículas de plástico. Para comparação, a mesma bebida, acondicionada em uma garrafa plástica ou lata metálica, continha apenas de 2 a 20 partículas por litro. Mesmo os pesquisadores admitiram que "esperavam um resultado oposto", supondo inicialmente que o vidro fosse mais puro.

Pintura nas tampas – fonte oculta de partículas

A explicação para a surpreendente contaminação das garrafas de vidro se encontra em suas tampas. As garrafas de vidro para bebidas geralmente são fechadas com tampas metálicas com uma vedação plástica interna e são pintadas por fora. A pesquisa da ANSES revelou que as partículas microplásticas encontradas no conteúdo das garrafas de vidro coincidiam em cor e composição com a tinta que cobre essas tampas metálicas. Em outras palavras, a tampa metálica pintada se transforma em uma fonte de microplástico na bebida.

A causa da contaminação das bebidas foi o atrito das tampas umas contra as outras durante o armazenamento e o transporte. As tampas metálicas, ao se tocando antes do enchimento, arranham invisivelmente a superfície pintada uma da outra. Pequenas partículas de revestimento, invisíveis a olho nu, se desprendem para dentro da garrafa no momento do fechamento. Assim, cada embalagem de vidro com uma tampa pintada contribui com uma contaminação invisível à bebida. Em contraste, garrafas plásticas têm tampas totalmente plásticas sem camada de tinta, explicando por que o nível de microplástico nelas é substancialmente mais baixo. Além disso, garrafas de vidro com tampas de rolha ou outras tampas não pintadas (como garrafas de vinho) praticamente não geram esse efeito.

Por que algumas bebidas se contêm mais microplástico

As diferenças no nível de microplástico entre os tipos de bebidas levaram os cientistas a considerar fatores adicionais. Por que, por exemplo, refrigerantes e cervejas em vidro continham dezenas de partículas, enquanto a água tinha apenas algumas unidades? Os especialistas sugerem que as propriedades da própria bebida e as condições de armazenamento podem desempenhar um papel:

  • Carbonatação e pressão: bebidas carbonatadas (cola, limonada, cerveja) criam pressão interna maior na garrafa. Isso pode aumentar o atrito da tampa com o gargalo e contribuir para o desprendimento de partículas de tinta.
  • Acidez do meio: algumas limonadas e refrigerantes carbonatados têm pH ácido. O ácido pode amolecer os revestimentos poliméricos, facilitando a liberação de micro partículas.
  • Temperatura e transporte: alterações de temperatura, agitação e transporte prolongado aumentam o desgaste das tampas. O movimento das garrafas em caixas ou contêineres resulta em atrito constante nas tampas, aumentando o desprendimento da tinta.

Assim, o maior nível de microplástico se verificou nos casos em que estavam combinados elementos vulneráveis da embalagem (tampas pintadas) e condições agressivas — pressão da carbonatação, composição química e impacto mecânico durante o transporte. Água e bebidas não carbonatadas, por outro lado, mostraram-se menos suscetíveis a esse problema.

Riscos potenciais à saúde

Ainda não está claro se o nível de microplástico descoberto representa uma ameaça imediata à saúde — os cientistas não têm um "limite de toxicidade" definido para essas partículas. No entanto, o próprio fato da presença de microplástico nos alimentos e bebidas causa preocupação entre médicos e ecologistas. Os microplásticos podem se acumular no organismo e afetá-lo de várias maneiras:

  • Acúmulo em órgãos: ao entrar através da alimentação e da bebida, o microplástico pode se depositar em vários tecidos. Partículas já foram encontradas nos pulmões, fígado, intestinos e até mesmo no sangue e leite materno de humanos. O acúmulo prolongado de partículas estranhas pode causar danos às células e órgãos.
  • Inflamação crônica: o sistema imunológico reconhece o plástico como um corpo estranho e tenta combatê-lo. A presença constante de microplástico pode provocar processos inflamatórios que, com o tempo, danificam tecidos saudáveis.
  • Desregulação da microbiota intestinal: partículas plásticas no sistema digestivo podem perturbar o equilíbrio das bactérias intestinais. Pesquisas mostram que o microplástico altera a composição da microbiota, o que pode levar a distúrbios digestivos, diminuição da imunidade e disfunções metabólicas.
  • Transporte de substâncias tóxicas: o microplástico atrai e adsorve na sua superfície diversas substâncias tóxicas — de pesticidas e metais pesados a dioxinas. Ao entrar no organismo junto com as partículas, essas substâncias químicas podem causar efeitos nocivos adicionais, incluindo desregulação hormonal.

Embora o dano direto de pequenas doses de microplástico ainda não esteja comprovado, os médicos concordam que o excesso de "pó plástico" em nossa dieta não contribui para a saúde. Especialmente preocupante é sua capacidade de induzir inflamações crônicas e transportar substâncias químicas nocivas para o corpo — fatores que, ao longo do tempo, podem contribuir para o desenvolvimento de doenças graves.

Formas de reduzir o microplástico nas embalagens

Felizmente, ao identificar a fonte da contaminação, os pesquisadores também propõem soluções para sua redução. Os produtores de bebidas podem relativamente facilmente reduzir a contaminação por plástico das tampas, melhorando os processos tecnológicos. Especialistas da ANSES testaram diversos métodos de tratamento das tampas antes do fechamento e alcançaram uma redução substancial do microplástico. Abaixo estão algumas medidas chave:

  1. Limpeza prévia das tampas. O sopro de tampas novas com ar comprimido, seguido de enxágue com água filtrada e álcool antes do enchimento, permitiu reduzir o conteúdo de micropartículas em cerca de 60%.
  2. Armazenagem cuidadosa das tampas. É importante minimizar o atrito entre as tampas antes do enchimento. Para isso, os produtores podem alterar as condições de armazenamento e transporte das tampas — por exemplo, utilizando almofadas ou divisores que evitem o contato massivo das tampas. A redução do impacto mecânico sobre o revestimento diminuirá a formação de arranhões e resíduos de tinta.
  3. Melhoria dos materiais e revestimentos. Outra direção é o desenvolvimento de materiais para tampas mais resistentes ao desgaste. O uso de tintas menos suscetíveis ao descascamento ou revestimentos protetores alternativos permitirá minimizar a migração de partículas.

A implementação dessas medidas pode melhorar significativamente a situação. A adaptação dos processos (limpeza ou novas condições de armazenamento) não deve ter alto custo para os fabricantes, enquanto o efeito para o consumidor será um produto mais limpo, sem impurezas.

Consequências para a indústria de bebidas

A descoberta dos especialistas franceses serve como um sinal para toda a indústria de bebidas e embalagens. As embalagens de vidro foram promovidas por muitos anos como uma alternativa ecológica ao plástico: elas não geram resíduos plásticos, são recicláveis e não liberam substâncias nocivas no conteúdo. No entanto, o novo fator do microplástico mostra que o vidro também apresenta riscos ocultos. Isso não significa que se deve abrir mão das garrafas de vidro — mas, sim, que é necessário aperfeiçoar sua construção e ciclo de produção.

Para os produtores de bebidas, a conclusão é clara: o controle de qualidade deve levar em conta não apenas o líquido, mas todos os elementos da embalagem. Testes adicionais para microplástico e medidas preventivas (como a limpeza das tampas descrita) podem se tornar um novo padrão na indústria. Reguladores e consumidores estão cada vez mais atentos à segurança e pureza dos produtos. Empresas que investirem em soluções "sem microplástico" se beneficiarão em termos de reputação.

O que isso significa para os consumidores

O conhecimento sobre esse problema ajuda a tomar decisões mais conscientes na hora da escolha. Embora seja difícil evitar completamente o microplástico nas condições atuais, as pessoas têm o direito de esperar transparência e melhorias tecnológicas das marcas. Ações simples — como enxaguar o gargalo e a tampa antes de fechar novamente a garrafa — também podem reduzir ligeiramente a entrada de plástico na bebida. No fim das contas, o aumento da conscientização sobre o microplástico por todas as partes do mercado estimula a criação de produtos mais limpos e seguros para os consumidores.


open oil logo
0
0
Adicionar comentario:
Mensagem
Drag files here
No entries have been found.