Mercado de petróleo: diplomacia no Hormuz derruba cotações
O mercado de petróleo passou por uma das correções mais abruptas do ano. Após um rali em julho, quando o Brent superou US$ 90 o barril em meio ao bloqueio do estreito de Hormuz, notícias sobre um iminente acordo temporário entre Irã, Omã e EUA inverteram a tendência. As partes estão discutindo um plano de 60 dias para dividir os fluxos de navegação: petroleiros a caminho do Golfo Pérsico seguirão a rota iraniana, enquanto os navios deixando o golfo seguirão a rota próxima a Omã, sem cobrança de taxa de passagem. Nesse contexto:
- O Brent operou entre US$ 78,5 e US$ 79,7 por barril na manhã de 6 de agosto, após uma queda de mais de 5% na sessão anterior;
- O WTI caiu para US$ 74,8 a US$ 75,2 por barril;
- a consolidação das cotações está ocorrendo em um estreito intervalo de US$ 78,6 a US$ 81,3 após a queda acentuada de 3 a 4 de agosto;
- a previsão média dos analistas para o preço do Brent para todo o ano de 2026 permanece acima de US$ 85 por barril — o mercado antecipa a manutenção de um prêmio por riscos geopolíticos.
O presidente dos EUA declarou publicamente que houve "avanços significativos" nas negociações e que está disposto a suspender algumas sanções contra a exportação de petróleo iraniano e destinar a frota militar para longe das costas iranianas caso um acordo seja alcançado. Por sua vez, Teerã insiste oficialmente que está discutindo o regime de navegação apenas com Omã, e não diretamente com Washington, o que deixa espaço para novos desdobramentos. Para o mercado de petróleo e produtos derivados, a questão crucial permanece: a desescalada se consolidará ou a tensão no Golfo Pérsico retornará em setembro.
OPEP+: fim do ciclo de aumento da produção
A aliança OPEP+ confirmou que, a partir de setembro, sete países membros, incluindo Rússia e Arábia Saudita, aumentarão as cotas de produção de petróleo em mais 188 mil barris por dia. Esta decisão encerra o retorno gradual de 1,65 milhão de barris por dia de cortes voluntários iniciados anteriormente neste ano. Detalhes-chave:
- o nível total de produção permitido para a aliança atingirá 36,206 milhões de barris por dia;
- Arábia Saudita e Rússia receberão aumentos iguais — 62 mil barris por dia, até 10,478 milhões e 9,949 milhões de barris por dia, respectivamente;
- até o final de 2026, não está previsto novo aumento das cotas, segundo fontes da organização;
- a produção real em alguns países está aquém das cotas devido a interrupções na infraestrutura de exportação — ataques a instalações na Rússia e a tensão no Golfo Pérsico têm contido a plena recuperação da oferta.
A próxima reunião ministerial da OPEP+ está marcada para o início de setembro — o mercado acompanhará de perto a retórica da aliança em relação a 2027, especialmente à luz da possível normalização da situação em torno do estreito de Hormuz.
Mercado de gás da Europa: estoques recordemente baixos antes do inverno
Diferente do petróleo, a situação no mercado de gás europeu permanece tensa. De acordo com a Gas Infrastructure Europe, no início de agosto, os armazenamentos subterrâneos de gás (UGS) na UE estavam apenas 57% preenchidos, abaixo do anterior recorde negativo de 2021 e substancialmente aquém da meta da Comissão Europeia de 90% no início da temporada de aquecimento. Os principais fatores da escassez incluem:
- redução das entregas de GNL através do estreito de Hormuz — estima-se que até 20% das volumes globais de gás liquefeito foram temporariamente fora da logística;
- queda de 7% nas importações de GNL para a Europa em agosto em relação ao ano anterior;
- os preços à vista no hub TTF se estabilizaram em US$ 696 por mil m³, contra US$ 626 em média em julho — um aumento de quase 50% em relação a agosto do ano passado;
- a contribuição da geração eólica no balanço energético da Europa caiu para 10% no início de agosto, contra 14% no ano anterior, o que aumenta a pressão sobre a geração a gás.
Analistas alertam: mantendo a atual dinâmica de injeção, a Europa pode iniciar a temporada de aquecimento com os estoques de armazenamento em não mais que 75%. Para os consumidores industriais de gás e empresas de energia, isso implica em maior volatilidade nos preços e risco de saltos nos custos de eletricidade durante o inverno de 2026-2027.
Sanções e geopolítica: entre Hormuz e Ucrânia
O cenário de sanções permanece um fator determinante para o setor de petróleo e gás. Washington vincula um possível alívio das restrições contra a exportação de petróleo iraniano ao progresso no estreito de Hormuz, enquanto o regime sancionador contra os recursos energéticos russos permanece inalterado. Ao mesmo tempo, ataques à infraestrutura de refino e exportação continuam a impactar os volumes reais de fornecimento de petróleo e produtos derivados da Rússia e países do Golfo Pérsico, o que os analistas da Kpler consideram uma das razões para adiar a previsão de recuperação da produção no Oriente Médio de setembro de 2026 para o início de 2027. Para os traders globais e participantes do mercado de energia, o cenário continua a ser bípede: uma desescalada sustentada pode devolver o petróleo à faixa de US$ 70-75, enquanto uma ruptura nas negociações ou um novo ataque à infraestrutura podem empurrar o Brent para US$ 90 ou mais.
Mercado de combustíveis da Rússia: restrições de exportação permanecem
Dentro da Rússia, as autoridades continuam a controlar a escassez de combustíveis por meio de um conjunto de medidas administrativas. As decisões-chave das últimas semanas incluem:
- proibição total da exportação de gasolina, diesel, combustível marítimo e óleo combustível para todos os produtores prorrogada até o final de setembro, e para gasolina — até o final de 2026;
- a partir de 1º de setembro, será uma flexibilização parcial do regime para diesel e óleo combustível por parte dos produtores diretos;
- os preços no varejo da gasolina aumentaram quase 14% desde o início do ano, e os do diesel aumentaram quase 15%, superando significativamente a inflação geral;
- importação de produtos derivados de petróleo iniciada para estabilizar o balanço interno, e regras especiais de formação de preços em compras de combustível pelo governo suspensas até o final do ano.
Especialistas observam que a proibição de exportação da Rússia prejudica mais os mercados externos — especialmente a Europa e os EUA, onde a escassez de diesel já se refletiu nas cotações de bolsa, enquanto a Ásia, que possui suas próprias capacidades de refino, sente o efeito menos intenso.
Demanda asiática: China e Índia aumentam compras
Os maiores importadores asiáticos continuam a determinar o equilíbrio do mercado global de petróleo e gás. A China mantém o status de principal compradora de petróleo russo e do Oriente Médio, enquanto aumenta sua própria produção e investimentos na exploração de campos. A Índia mantém condições favoráveis para a compra de petróleo do tipo Urals e, ao mesmo tempo, desenvolve programas de exploração em águas profundas para reduzir a dependência de importações a longo prazo. Ambos os países permanecem como fatores principais de suporte à demanda em um contexto de resfriamento do consumo em economias desenvolvidas.
Transição energética: fontes renováveis se preparam para superar o carvão
De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), já em 2026 as fontes de energia renovável (REN) superaram o carvão na estrutura global de geração de eletricidade pela primeira vez. A geração solar deve adicionar cerca de 600 TWh de capacidade por ano e se tornará a segunda fonte mais significativa de eletricidade "verde" depois da energia hidrelétrica. Ao mesmo tempo:
- a crise do gás, causada por interrupções no estreito de Hormuz, acelerou a transição de vários países para a geração solar como uma forma de reduzir a dependência de combustíveis importados;
- as taxas globais de instalação de novas capacidades solares em 2026 podem desacelerar pela primeira vez em 25 anos devido à saturação dos principais mercados e mudanças na política regulatória;
- as emissões de CO2 da energia, segundo previsões da AIE, devem aumentar em 1% em 2026 devido ao aumento temporário da geração a carvão diante do gás caro, mas espera-se estabilização já em 2027.
Carvão: revanche temporária em meio ao gás caro
O aumento dos preços do gás natural reacendeu o interesse das empresas de energia pela geração a carvão como fonte reserva de eletricidade. Na região da Ásia-Pacífico, onde está concentrada a principal demanda por carvão energético, o consumo permanece próximo de níveis recordes. Apesar da estratégia de descarbonização de longo prazo, no curto prazo, o carvão ainda desempenha a função de proteção dos sistemas de energia contra interrupções no fornecimento de gás, especialmente em períodos de pico de carga.
Resultados do dia: o que esperar dos investidores do setor de energia
O complexo de petróleo e gás inicia o fim de semana com um conjunto contraditório de sinais. O mercado de petróleo demonstra sinais de desescalada em meio à diplomacia do Hormuz, mas o risco geopolítico permanece elevado e pode voltar a qualquer momento. O mercado de gás da Europa, por outro lado, entra em uma fase de tensão estrutural antes do inverno, criando condições para aumento da volatilidade dos preços de eletricidade. O mercado de combustíveis da Rússia mantém o controle administrativo, enquanto a transição energética global ganha impulso, apesar do renascimento temporário da geração a carvão. Para os participantes do mercado de energia — empresas de petróleo e gás, refinarias, investidores em REN e traders de produtos derivados de petróleo — os principais pontos de referência nas próximas semanas permanecem os resultados das negociações sobre o estreito de Hormuz, as taxas de injeção de gás nos armazenamentos europeus e as decisões da OPEP+ na reunião de setembro da aliança.