A temporada de aquecimento na Europa começou apenas agora, mas os estoques em armazenamento já estão sendo esgotados em um ritmo recorde. O nível atual é geralmente característico do final de dezembro. O que leva os europeus a consumir tão rapidamente seus estoques de gás para o inverno e quais são os riscos disso?
Os países europeus estão retirando gás de seus depósitos subterrâneos (UGS) em um ritmo recorde. De 15 a 30 de novembro, foram retirados 7,7 bilhões de metros cúbicos, superando em 5% os números de novembro de 2024 para o mesmo período, de acordo com dados da Gas Infrastructure Europe (GIE). Na primeira quinzena do mês, a retirada foi menor.
A retirada em novembro está adiantada em relação ao ritmo habitual em cerca de um mês. Ou seja, o nível atual dos estoques nos UGS da UE geralmente era alcançado no final de dezembro (média dos últimos cinco anos), conforme relatado pela TASS.
"Os verdadeiros frios ainda não chegaram à Europa. Temos vários meses de clima invernal pela frente. A diminuição dos estoques em UGS tecnologicamente reduz sua eficiência. Em caso de frio intenso ou prolongado, os estoques insuficientes de gás nos UGS podem ameaçar o fornecimento confiável de gás para os consumidores europeus", afirmam especialistas da Gazprom.
Existem várias razões pelas quais os europeus se veem obrigados a retirar mais gás dos UGS no início desta temporada de aquecimento do que em 2024.
"Primeiramente, muitas empresas europeias estão tentando agora vender gás de seus depósitos subterrâneos, pois temem que os preços possam cair ainda mais. Enquanto compraram e armazenaram esse gás anteriormente a preços mais altos do que os atuais, agora temem arcar com perdas ainda maiores",
– diz o especialista da Universidade Financeira do Governo da Federação Russa e do Fundo Nacional de Segurança Energética (FNESB) Igor Yushkov. Os preços de mercado do gás na Europa caíram para o menor patamar em um ano e meio – a 335 dólares por mil metros cúbicos no dia 2 de dezembro.
Em segundo lugar, a UE está recebendo menos gás de dutos do que no ano passado, devido a uma redução de 15-16 bilhões de metros cúbicos nas entregas de gás russo em trânsito pela Ucrânia. "Portanto, mesmo com os volumes anteriores de GNL, os europeus ainda estariam retirando mais gás dos UGS. Os volumes de gás que eram recebidos diariamente em trânsito pela Ucrânia da Rússia no ano passado agora estão sendo compensados pelo gás dos UGS", explica o especialista do FNESB.
Além disso, a UE perdeu mais de 1 milhão de toneladas de GNL por ano, que eram entregues ao mercado europeu a partir de dois projetos russos – "Kriogaz Vysotsk" e "Gazprom GNL Portovaya". Agora, as entregas estão suspensas devido a sanções dos EUA.
O terceiro fator é que os europeus agora precisam "alimentar" a Ucrânia com seu próprio gás. "Antes, a Ucrânia comprava um reverso virtual, ou seja, na prática, gás russo em trânsito, e agora está comprando fisicamente o gás dos europeus. Provavelmente, a produção local da Ucrânia também caiu devido aos ataques russos, portanto, ela se vê forçada a comprar ainda mais da Europa. A Ucrânia está dependente do apoio europeu, que deve garantir não apenas o seu próprio mercado, mas agora também o mercado ucraniano, através da importação e de seus próprios depósitos", diz Igor Yushkov.
A quarta diferença em relação ao ano passado é que em 2025 houve um pequeno, mas perceptível aumento no consumo de gás na Europa. "O consumo de gás na UE começou a se recuperar após a queda em 2022-2023, quando os preços estavam extremamente altos. Isso aconteceu porque o gás não estava tão caro, com preços na faixa de 400 dólares por mil metros cúbicos", afirma Yushkov.
Entretanto, o frio, segundo o especialista, ainda não é a principal razão para a retirada acelerada de gás dos UGS em comparação ao ano passado.
Quais são, então, os riscos de retirar gás dos depósitos subterrâneos em um ritmo mais rápido? O principal risco é que, ao final do ano, pode haver um estoque criticamente baixo de gás.
"O cenário mais extremo seria se, no final da temporada de aquecimento, houvesse uma onda de frio. Se em fevereiro e março ocorrerem intensas nevascas, e os depósitos tiverem pouco gás, então a retirada diária se tornará mais difícil.
Isso levará a uma escassez de gás, que só poderá ser coberta por meio da importação atual. Isso significa que a Europa terá que competir com os mercados asiáticos por volumes de GNL. Como resultado, os preços do gás aumentarão. Isso representa um efeito negativo para a economia europeia", explica Yushkov.
Além disso, ao longo do ano, observa-se um aumento na participação do GNL na estrutura das importações de gás da União Europeia. "A participação do GNL nas importações de gás da UE aumentou de 37% para 45%. Se nos primeiros nove meses de 2024 a UE importou 297 milhões de metros cúbicos de GNL por dia, no mesmo período de 2025 foram 376 milhões de metros cúbicos", diz Sergey Tereshkin, diretor geral da Open Oil Market.
Porém, assim que a temporada de aquecimento começa, a demanda aumenta drasticamente – e não apenas na Europa, mas também na Ásia. Os compradores asiáticos estão desviando grandes volumes de GNL para si a preços elevados.
Quanto mais frio estiver na Ásia e na Europa, mais forte será a competição entre as duas regiões por volumes limitados de GNL, impulsionando o aumento dos preços, conclui Yushkov.
Fonte: VZGLYAD