IPO no mercado de ações: um guia completo para iniciantes
Introdução: Por que o IPO é mais importante do que você pensa
A história da Apple: do garajão aos bilhões
Em 1980, uma empresa pouco conhecida chamada Apple fez sua oferta pública inicial (IPO). Os investidores que compraram ações no primeiro dia a $22 não imaginavam que estavam segurando um bilhete para o futuro. Hoje, uma ação da Apple vale mais de $220 – um aumento de 10 vezes em uma década. Não são apenas números. São histórias de pessoas que investiram algumas milhares de dólares e ganharam milhões.
Mas a Apple não é uma garantia. Um número mais importante: 10% de todos os IPOs realizados nos últimos 20 anos caíram 50% ou mais no primeiro ano. Investidores que acreditaram nessas empresas e investiram seu dinheiro perderam metade de seu capital quase imediatamente.
Três perguntas-chave
O que é um IPO e por que esse evento pode criar milionários ou arruinar investidores ingênuos? Por que as empresas compartilham sua propriedade com milhões de estranhos em vez de apenas pegar um empréstimo no banco? E como um iniciante pode se proteger nesse jogo financeiro de alto risco, onde os interesses de todos os participantes (bancos de investimento, diretores executivos, investidores iniciais) trabalham contra os seus?
Este artigo fornecerá uma compreensão completa do mecanismo de IPO, desde o momento em que a empresa decide se tornar pública até que suas ações começam a ser negociadas no mercado. Você aprenderá sobre a psicologia por trás das especulações no primeiro dia de negociação, sobre os conflitos de interesse ocultos que podem trabalhar contra você, e sobre como um iniciante pode investir com sucesso em IPOs sem cometer graves erros.
Parte 1: Conceitos fundamentais de IPO
O que é um IPO e por que é um evento histórico
IPO, ou Oferta Pública Inicial, é o momento em que uma empresa anteriormente privada oferece suas ações ao público pela primeira vez. É como se o proprietário de um pequeno restaurante, em vez de mantê-lo totalmente sob seu controle, oferecesse à comunidade a oportunidade de comprar partes desse restaurante e receber parte do lucro.
Mas um IPO é muito mais do que apenas a venda de ações. É um limiar de transformação. Após o IPO, a empresa deve divulgar seus resultados financeiros a cada trimestre, abrir-se para auditorias regulatórias, e permitir que investidores votem em assembleias anuais de acionistas. Se antes a empresa era um reino onde o proprietário era o dono absoluto, após o IPO ela se torna uma democracia, onde os acionistas têm direito a voz.
Para uma empresa, um IPO representa o reconhecimento de que ela está pronta para o próximo estágio de desenvolvimento. Quando o Facebook fez seu IPO em 2012, levantou $16 bilhões. Esse dinheiro foi utilizado para expansão, aquisições de concorrentes (como o Instagram) e investimentos em novas tecnologias. A empresa ganha moeda (dinheiro dos investidores) que lhe permite crescer mais rapidamente do que poderia apenas contando com empréstimos bancários.
IPO vs empréstimo bancário: por que as empresas escolhem ações em vez de dívida
Quando uma empresa precisa de dinheiro, tem uma escolha. A primeira opção: pegar um empréstimo no banco. O banco concederá um crédito com uma taxa de juros definida, e a empresa terá que reembolsar o valor, independentemente de ser lucrativa ou não. O banco não está interessado no sucesso da empresa – ele só quer receber suas taxas. Se a empresa não devolver o dinheiro, o banco pode tomar seus bens.
A segunda opção: atrair capital de risco. O investidor fornece dinheiro em troca de uma participação na empresa. Se a empresa se tornar uma bilionária, o investidor ganhará milhões. Mas os investidores de capital de risco geralmente exigem um forte controle sobre as decisões da empresa, nomeando seus representantes no conselho de administração e controlando os gastos.
A terceira opção: realizar um IPO. A empresa oferece ações ao público. Os investidores compram não porque exigem controle, mas porque acreditam no potencial da empresa. A empresa recebe dinheiro, mas não está obrigada a devolvê-lo. E o mais importante – a empresa pode, futuramente, emitir mais ações e arrecadar mais dinheiro.
De uma empresa privada a uma pública: o ciclo de vida
A vida de uma empresa geralmente passa por várias fases. Na primeira fase, é a ideia – um grupo de amigos desenvolvendo um aplicativo em uma garagem (como aconteceu com a Apple e o Google). O dinheiro vem de amigos, familiares e poupanças pessoais dos fundadores. Nessa fase, a empresa não provou quase nada, o risco é máximo.
Na segunda fase, o capital de risco chega. Investidores veem potencial e acreditam no mercado. Por exemplo, o Uber, em 2009, levantou $200 mil de um fundo de capital de risco. Nesta fase, a empresa cresce, contrata funcionários, aluga escritórios, mas ainda é deficitária. Ela queima o dinheiro dos investidores para se expandir e competir.
Na terceira fase, a empresa se torna lucrativa (ou está próxima disso). Ela tem uma base sólida de clientes, um modelo de negócios comprovado e uma vantagem competitiva. Nessa fase, a empresa pode realizar um IPO. Agora, os investidores acreditam não no potencial, mas na realidade. A empresa provou que pode ganhar dinheiro e sobreviver em um mercado competitivo.
Após o IPO, a empresa entra na quarta fase: maturidade. Ela não é mais uma startup com mentalidade inovadora. Ela tem responsabilidades perante milhões de acionistas, relatórios trimestrais, assembleias anuais com investidores. Ideias outrora revolucionárias se tornam processos burocráticos. A empresa pode se tornar uma entidade de longo prazo (como a Microsoft, que fez seu IPO em 1986 e ainda está prosperando) ou começar a declinar, pois perdeu agilidade e espírito inovador.
Ação: unidade de propriedade
Quando uma empresa realiza um IPO, ela não está apenas vendendo "partes" abstratas. Ela está criando ações – títulos especiais que representam uma participação na empresa. Se a empresa fez um IPO e emitiu 100 milhões de ações, e você comprou 1.000 ações, você possui 0,001% da empresa. Isso não é apenas um número na tela. Isso é um direito de propriedade real.
Isso tem consequências reais. Se a empresa falir e seus ativos forem vendidos, você receberá sua parte desse dinheiro (se sobrar algo após o pagamento das dívidas). Se a empresa pagar dividendos (parte do lucro), você receberá sua parte dos dividendos. E se houver uma assembleia anual de acionistas, você poderá votar – uma ação, um voto. Você pode até pedir a demissão do CEO se seu salário parecer muito alto.
Mas uma ação também é um instrumento de especulação. O preço da ação depende não apenas de quanto dinheiro a empresa ganha, mas também do que outros investidores pensam sobre o futuro. Se todos acharem que a empresa crescerá 30% ao ano, o preço sobe. Se todos acharem que a empresa está em queda, o preço cai. Isso cria oportunidades de lucro (se você comprou barato e vendeu caro) e riscos de perdas (se você comprou caro e é forçado a vender barato).
Parte 2: Participantes e papéis no IPO
Empresa emissora: quem realiza o IPO e por que
A empresa emissora é quem emite ações e realiza o IPO. Geralmente, essa decisão é respaldada pelo conselho de administração, que acredita que a empresa está pronta para a próxima etapa de desenvolvimento. O CEO e o CFO passam meses se preparando, se encontrando com investidores, preparando relatórios financeiros e convencendo os reguladores de que a empresa merece esse passo.
Para a empresa, o IPO é como uma formatura. Há a oportunidade de obter uma enorme quantidade de capital, há responsabilidades perante os acionistas, há incerteza sobre como o mercado perceberá a empresa. A empresa sabe que, após o IPO, não pode se fechar ao escrutínio público. A cada trimestre, terá que decepcionar ou alegrar os investidores com novos números. Cada erro será discutido em sites financeiros. Cada rumor sobre a venda da empresa agitará os acionistas e afetará o preço das ações.
Mas a empresa quer o IPO porque isso significa liberdade financeira. Terá dinheiro que pode gastar em expansão, sem necessariamente explicar ao banco por que esses gastos são necessários. Terá ações que pode usar como moeda para comprar outras empresas. E terá funcionários que pode pagar em ações em vez de salários – isso é mais barato no curto prazo, mas cria um poderoso incentivo para o trabalho árduo.
Consórcio de subscrição: bancos de investimento e seus conflitos de interesse
Um banco de investimento é a organização que ajuda a empresa a realizar o IPO. Grandes bancos de investimento, como Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan Chase, têm vasta experiência nesse campo. Eles conhecem todas as regras da SEC, todos os requisitos regulatórios e todas as manobras do mercado financeiro.
Mas aqui começa um conflito de interesse que atua contra o iniciante. O banco de investimento ganha dinheiro com comissões – normalmente 3 a 7% do total arrecadado no IPO. Se a empresa levanta $1 bilhão, o banco de investimento ganha $30-70 milhões. Esse é o dinheiro que o banco de investimento quer maximizar de qualquer forma.
Como maximizar a comissão? Uma maneira simples é convencer a empresa a estabelecer um preço de IPO o mais alto possível. Quanto mais alto o preço, maior a comissão. Assim, o banco de investimento pressiona a empresa para uma avaliação mais alta, mesmo que essa avaliação não corresponda ao valor fundamental. Mas o que é bom para o banco de investimento pode ser ruim para os novos investidores, que compram ações a um preço inflacionado e perdem dinheiro em 6-12 meses.
Além disso, o banco de investimento muitas vezes é o comprador principal das ações do IPO. Ele compra a maior parte das ações e depois as revende para os investidores de varejo. Se o IPO não for popular, o banco de investimento pode ficar com uma grande quantidade de ações que não pode vender. Isso é um risco para o banco de investimento, mas também uma razão pela qual ele pode manipular o mercado, criando a impressão de popularidade do IPO para atrair mais compradores.
Reguladores: SEC, BC e proteção dos investidores
Nos EUA, o regulador é a SEC (Securities and Exchange Commission – Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio). A SEC exige que a empresa divulgue todas as informações materiais sobre suas operações antes do IPO. Isso inclui relatórios financeiros dos últimos anos, riscos potenciais, conflitos de interesse, biografias dos executivos, processos judiciais em que a empresa está envolvida.
Todas essas informações são compiladas em um documento chamado S-1 (nos EUA) ou prospecto de emissão (em outros países). O documento pode ter 200-400 páginas de espessura. A SEC o analisa detalhadamente, faz perguntas à empresa e exige esclarecimentos e justificativas. O processo pode levar meses e envolve vários ciclos de correspondência entre a empresa e o regulador.
O objetivo da SEC não é impedir o IPO (a SEC não pode proibir uma empresa de realizar um IPO se ela atender aos requisitos). O objetivo é garantir que os investidores tenham informações suficientes para tomar uma decisão informada. Se a empresa ocultar informações ou apresentá-las de forma enganosa, a verdade logo será revelada (por meio de relatórios financeiros, concorrentes, mídia) e os investidores perderão dinheiro, resultando em ações judiciais.
Na Rússia, um papel semelhante é desempenhado pelo Banco Central e pela FCSM (Serviço Federal de Mercados Financeiros). Na Europa, é a ESMA (Autoridade Europeia de Valores Mobiliários e Mercados). Todos eles têm um objetivo comum: proteger os investidores por meio da transparência e exigências de divulgação de informações.
Investidores: varejistas vs institucionais
Os investidores podem ser de dois tipos: varejistas (pessoas comuns que compraram algumas ações por meio de um corretor) e institucionais (fundos de pensão, companhias de seguros, fundos mútuos que administram bilhões de dólares).
Na prática, durante um IPO, a maior parte das ações é comprada por investidores institucionais. Eles podem comprar milhões de ações de uma só vez, pois possuem o capital e estão comprando para seus clientes. Os investidores de varejo recebem as ações restantes – se é que restam. Às vezes, os investidores de varejo não conseguem comprar ações do IPO – pelo menos na primeira fase da oferta. O banco de investimento pode primeiro oferecer ações aos investidores institucionais e, só depois, se sobradas, aos investidores de varejo.
Essa é parte do sistema que age contra o iniciante. Se você é um pequeno investidor com $10.000 na conta, não terá a mesma oportunidade que a Vanguard (um grande fundo mútuo com $7 trilhões sob gestão) ou a BlackRock. A Vanguard receberá a quantidade necessária de ações ao preço da oferta, enquanto você – as sobras, ou nada, porque o IPO se vendeu muito rapidamente.
Parte 3: Processo de preparação e etapas do IPO
Pré-IPO: auditoria financeira e aprovação regulatória
O processo de IPO começa muito antes do primeiro dia de negociação. Meses antes do anúncio, a empresa contrata um banco de investimento (chamado de lead underwriter), que se torna seu patrocinador e parceiro. O banco de investimento começa a preparar documentos, organizar relatórios financeiros e preparar a empresa para a vida como uma corporação pública.
O primeiro passo é uma auditoria financeira. Uma empresa de auditoria independente (como as Big Four: Deloitte, PwC, EY, KPMG) verifica todos os registros financeiros da empresa ao longo de vários anos. O auditor se assegura de que a empresa não esteja ocultando enormes dívidas, que todas as receitas são reais e não fictícias, e que as reservas estão corretamente estabelecidas. Se o auditor encontrar problemas, a empresa deve corrigi-los. Isso pode significar a reclassificação de receitas, reconhecimento de obrigações ocultas; tudo se torna público.
O segundo passo é a preparação do prospecto de emissão (forma S-1 nos EUA). Este é um documento que revela tudo o que os investidores precisam saber sobre a empresa: sua história de desenvolvimento, modelo de negócios, principais concorrentes, riscos e oportunidades potenciais, resultados financeiros dos últimos 3-5 anos, planos para o futuro, compensação da equipe de gestão, contratos materiais, e litígios.
O terceiro passo é uma reunião com a SEC (ou seus equivalentes em outros países). A empresa apresenta uma versão preliminar do S-1. A SEC o lê, faz perguntas, exige esclarecimentos e informações adicionais. O vai-e-vem da correspondência pode durar vários meses. A SEC pode perguntar: "Por que você não revelou esse contrato com um concorrente?" ou "Como você avaliou o valor justo dessa aquisição?" A empresa responde detalhadamente, e a SEC faz mais perguntas.
Roadshow: apresentação aos investidores
Após a aprovação da SEC, começa o roadshow – uma das fases de preparação mais intensas do IPO. O CEO e o CFO da empresa viajam pelo país (ou pelo mundo), reunindo-se com investidores e apresentando a empresa. O roadshow pode durar de 2 a 4 semanas de trabalho intenso. Em cada cidade, há reuniões com 15-20 fundos mútuos, fundos de pensão, companhias de seguros e hedge funds.
O CEO fala sobre a visão da empresa para os próximos 5-10 anos. O CFO mostra os números: receitas, lucros, taxas de crescimento, margem. Os investidores fazem perguntas difíceis: "Como você sabe que o mercado crescerá 20% como você prevê, se a economia está desacelerando?" ou "Quem é seu principal concorrente e por que você acha que pode superá-lo?" As respostas influenciam se os investidores querem comprar ações do IPO em grandes quantidades.
O roadshow também é uma oportunidade para o banco de investimento sentir a demanda no mercado. Após cada reunião, o banco de investimento recebe feedback: "Não, o preço está muito alto, não estamos interessados" ou "Estamos muito interessados, vamos comprar 5 milhões de ações". Com base nesse feedback, o banco de investimento determina qual preço atrairá interesse suficiente de grandes investidores.
Dia do IPO: definição do preço e subscrição
Após a conclusão do roadshow, o banco de investimento e a empresa definem a faixa de preços com base nas informações coletadas. Por exemplo, eles podem decidir que o preço deve ficar entre $20 e $25 por ação, porque essa faixa atrai o máximo de interesse. No final do dia, quando o roadshow termina, o banco de investimento analisa a demanda e estabelece o preço final. Se a demanda for enorme (todos querem comprar), o preço vai para a parte superior da faixa ($25). Se a demanda for fraca, o preço vai para a parte inferior ($20).
Após a definição do preço, começa a subscrição – um curto período (geralmente 1-2 horas à noite) durante o qual os investidores podem enviar pedidos para comprar ações. O investidor diz: "Quero 100.000 ações a $22". Todos os pedidos são coletados pelo banco de investimento. Se a demanda total é de 10 milhões de ações e a empresa oferece apenas 5 milhões, isso é uma cobertura de 2 vezes. O banco de investimento escolhe para quem distribuir as ações, geralmente dando às seus clientes habituais e grandes fundos.
Os investidores que enviaram pedidos a preço de oferta são chamados de participantes da livro (book runners). Eles garantem uma quantidade de ações. Para eles, o IPO normalmente é lucrativo, porque o preço geralmente sobe no primeiro dia de negociação, e eles podem vender ações com lucro.
Listagem e início da negociação pública
Na manhã seguinte, as ações da empresa começam a ser negociadas na bolsa. Na NYSE (Bolsa de Valores de Nova York) ou na NASDAQ (onde as empresas de tecnologia são listadas). O CEO da empresa pode ligar para a bolsa e ouvir o símbolo da empresa anunciado ao mundo e sendo retransmitido por todos os canais de notícias. Por exemplo, "Apple Computer, Inc., AAPL". Este é o momento que a empresa sonhou desde a sua fundação e sua longa jornada até o IPO.
No primeiro dia de negociação, geralmente tudo acontece rapidamente. Investidores que não receberam ações durante o IPO (a maioria dos investidores de varejo) agora querem comprá-las a qualquer custo. A demanda é enorme, a oferta é limitada. O preço salta do preço da oferta (digamos, $22) para, talvez, $30 nas primeiras horas de negociação. Isso pode significar um lucro instantâneo de 36% para aqueles que compraram durante o IPO.
Mas isso também significa que a empresa está super valorizada em um instante. Se a empresa foi avaliada em $22 no dia do IPO (com base na melhor compreensão do valor justo por parte dos bancos de investimento e analistas), uma avaliação de $30 no primeiro dia de negociação pode ser uma bolha especulativa. Investidores que compram ações no primeiro dia de negociação a $30 arriscam perder dinheiro se o preço cair para $18 na semana seguinte.
Parte 4: Riscos e proteção dos investidores
Lock-up: por que o preço cai depois dele
Um dos fenômenos mais enigmáticos e lucrativos do IPO é a queda do preço após o término do lock-up. O que é o lock-up? É um período, geralmente de 180 dias (6 meses), durante o qual insiders da empresa (fundadores, membros do conselho, executivos, investidores iniciais que possuíam ações antes do IPO) não podem vender suas ações no mercado aberto.
Por que existe essa restrição? A lógica é simples e óbvia: sem ela, os insiders poderiam vender suas ações imediatamente no primeiro dia de negociação, quando o preço subiu 50% ou 100% em relação ao preço da oferta. Se um fundador, que comprou ações a $5 (durante o financiamento inicial), vê um preço de $25 no primeiro dia de negociação, ele pode vender todas suas ações e obter um enorme lucro de várias centenas de vezes. Mas então, um grande número de ações inundaria o mercado, o preço cairia devido à sobreoferta, novos investidores perderiam dinheiro, e a empresa estaria em escândalo.
O lock-up protege novos investidores, impedindo que insiders vendam em momentos críticos nos primeiros 6 meses. Mas quando o lock-up termina (após 6 meses), os insiders finalmente podem vender. E eles fazem isso, muitas vezes em massa. Um grande número de ações entra no mercado durante a primeira semana após o término do lock-up. A demanda não acompanha a oferta. O preço cai de 30 a 50%.
Isso acontece com quase todos os IPOs. Por exemplo, o Facebook fez seu IPO em 2012 a $38. No primeiro dia, o preço subiu para $40. Mas após o término do lock-up, o preço caiu para menos de $20 ao longo de alguns meses. Investidores que compraram a $40 no primeiro dia de negociação perderam 50% em um ano.
Assimetria de informação: os insiders sabem mais
Todos os mercados financeiros sofrem de um desbalanceamento fundamental: a assimetria de informação. Insiders (aqueles que trabalham na empresa) sabem mais do que novos investidores. O CEO sabe que as vendas despencaram no último mês. O CFO sabe que um cliente chave (uma empresa que representa 30% da receita) está considerando mudar para concorrentes. Mas essa informação não é divulgada no prospecto de emissão, porque, pelo regulador, não é necessariamente "material".
Essa lacuna informativa cria um risco sério para novos investidores. Eles veem números atraentes no prospecto, observam um crescimento da receita nos últimos 3 anos e pensam que a empresa é um excelente investimento a longo prazo. Mas os insiders podem saber que essa trajetória é insustentável.
Um exemplo clássico é o IPO da Theranos em 2015 (embora tecnicamente não tenha sido um IPO tradicional através da bolsa, mas o princípio é o mesmo). A CEO Elizabeth Holmes alegou que a empresa havia desenvolvido um dispositivo médico revolucionário capaz de realizar milhares de testes de sangue com uma única gota. Investidores acreditaram e investiram bilhões, avaliando a empresa em $9 bilhões. Mas, mais tarde, revelou-se que a tecnologia não funcionava, e os resultados foram falsificados. Investidores perderam quase tudo.
Conflitos de interesse: cujos interesses estão alinhados
No IPO, existem muitos conflitos de interesse que muitas vezes são invisíveis para o novo investidor. O banco de investimento está interessado em um preço alto (porque sua comissão aumenta – 7% de $100 bilhões é mais do que 3% de $50 bilhões). O CEO está interessado em um preço alto (porque suas opções de ações se tornam mais valiosas, e ele pode receber um maior salário). Investidores iniciais (fundos de risco) estão interessados em um preço alto (porque receberão mais dinheiro na saída e poderão se gabar para seus investidores).
Mas esses interesses podem trabalhar contra os interesses dos novos investidores. Um novo investidor está interessado em um preço justo — nem muito alto, nem muito baixo, um preço que reflita o verdadeiro potencial da empresa. Quando todos os outros participantes do IPO estão interessados em um preço alto, o novo investidor está do outro lado da negociação.
Isso não significa necessariamente fraude ou crimes. Todos os participantes podem agir dentro da legalidade, sem divulgar informações ocultas, sem apresentar relatórios falsos. Mas os interesses simplesmente não se alinham. E a estrutura do IPO é feita de tal forma que a vantagem está do lado dos insiders, e não dos novos investidores.
Bandeiras vermelhas: como identificar um IPO arriscado
Existem alguns sinais que devem levar os iniciantes a serem mais cautelosos ao analisar IPOs e decidir investir dinheiro. Uma avaliação extremamente alta é o primeiro e mais importante sinal de perigo. Se a empresa IPO está avaliada em 50 vezes seu lucro anual (P/E ratio = 50), enquanto os concorrentes são avaliados em 20 vezes seu lucro, isso pode ser uma bandeira vermelha. Isso significa que os investidores esperam um crescimento incomum no futuro, e se esse crescimento não ocorrer, o preço pode cair de 50-70%.
A segunda bandeira vermelha é uma empresa deficitária com promessas nebulosas. Se uma empresa IPO ainda está em déficit (perdendo dinheiro) e o banco de investimentos promete que ela será lucrativa "dentro de alguns anos" ou "quando atingir escala", tenha muito cuidado. "Alguns anos" muitas vezes se transformam em "nunca" ou "muito mais tempo do que o esperado". Exemplos abundam, desde o Uber (ainda não lucrativa até hoje, muitos anos após o IPO) até Lyft, Slack e outras "unicórnios".
A terceira bandeira é uma má gestão e falta de experiência. Se o CEO é jovem (20-30 anos), inexperiente em negócios e este é seu primeiro trabalho como CEO de uma grande empresa, isso é um risco. Se ele é jovem e muito convincente em contar uma história, mas não há provas de que pode cumprir o que promete a longo prazo, isso representa um grande risco. Exemplos: Elizabeth Holmes (Theranos) era jovem, atraente e convincente, tinha pessoas conhecidas no conselho, mas não conseguiu criar o produto que prometeu.
A quarta bandeira é uma comissão do banco de investimento inexplicavelmente alta. Se o banco de investimento cobra 7% de comissão (em vez dos normais 3-4%), isso pode significar que ele está tendo dificuldades para vender o IPO e deve ser mais agressivo em seu marketing. Isso sinaliza que a demanda pode ser mais fraca do que anunciado nas comunicações públicas.
A quinta bandeira é o uso de métricas únicas em vez de indicadores financeiros padrão. Se a empresa usa suas próprias métricas para medir o sucesso ("usuários ativos", "taxa de gastos", "EBITDA sem desconto", etc.), tenha cuidado. A empresa pode manipular essas métricas para se tornar mais atraente. Exemplos incluem redes sociais que falam sobre "usuários ativos" em vez de monetização real e lucratividade, e empresas de cloud computing que falam sobre sua própria "taxa de gastos" em vez do lucro padrão de acordo com a GAAP.
Parte 5: Guia prático para iniciantes
Como um iniciante pode comprar seu primeiro IPO: um guia passo a passo
Se você decidiu tentar investir em IPOs, aqui está um guia passo a passo que funciona para a maioria dos mercados desenvolvidos e que pode ser utilizado por iniciantes.
Passo 1: Escolha um corretor
Nem todos os corretores oferecem acesso a IPOs para investidores de varejo. Grandes corretores, como Charles Schwab, Fidelity, E*TRADE e TD Ameritrade, geralmente oferecem tal acesso. Verifique com seu corretor se ele oferece acesso a IPOs para clientes do seu tamanho. Lembre-se de que investidores de varejo frequentemente recebem ações menos populares de IPO; os IPOs mais desejados e populares vão para grandes fundos de pensão e fundos de investimento.
Passo 2: Junte dinheiro
O mínimo para comprar um IPO geralmente é algumas centenas de dólares, mas é melhor ter alguns milhares para diversificação. Lembre-se de que você não poderá gastar esse dinheiro por alguns meses (porque estará congelado em um pedido pré-IPO), então use dinheiro que você não precisa imediatamente para despesas correntes.
Passo 3: Submeta um pedido
Quando um IPO surge que lhe interessa, você envia um pedido através do seu corretor. Você informa quantas ações deseja comprar e a que preço (ou você aceita o preço que o banco de investimento irá definir com base na demanda coletada).
Passo 4: Espera
Após enviar seu pedido, você espera por alguns dias. O banco de investimento coleta todos os pedidos de todos os corretores, determina a demanda total e estabelece o preço final do IPO. Se você "for escolhido" para participar do IPO, o corretor congelará o dinheiro da sua conta.
Passo 5: Primeiro dia de negociação
Na manhã seguinte, as ações começam a ser negociadas na bolsa de valores como de costume. Você vê o preço de abertura (que pode ser muito superior ao preço da oferta). Agora você pode vender as ações (se o preço estiver alto e você quiser obter lucro rapidamente) ou mantê-las (se acreditar no potencial a longo prazo).
Estratégia de investimento: a longo prazo ou especulativa
Há duas estratégias principais para investir em IPOs: investimento de longo prazo e especulação de curto prazo. Especulação é a compra no primeiro dia de negociação, esperando um lucro rápido. Você compra a $25, espera 30 minutos, vê um preço de $35, vende, obtendo um lucro de 40%. Isso é chamado de flipping (do inglês flip — virar). Isso funciona quando o IPO é superavaliado no primeiro dia e a demanda é enorme. Mas também pode terminar em perdas se o preço cair rapidamente ou não subir.
Investimento a longo prazo é comprar um IPO porque você acredita na empresa por 5-10 anos. Você não se preocupa com o preço no primeiro dia de negociação. Você se preocupa com o preço e o lucro da empresa em 5 anos. Esta é uma estratégia mais conservadora, mas historicamente, ela gera melhores resultados ao longo das décadas.
Para iniciantes, é recomendável o investimento a longo prazo. A especulação requer habilidade, experiência, disposição para perder dinheiro rapidamente e resiliência emocional. Se você é um iniciante, concentre-se em entender a empresa, avaliar seu valor justo, comprar a um preço justo e manter as ações. Isso pode não ser o mais emocionante a curto prazo, mas funciona e gera riqueza a longo prazo.
Parte 6: Exemplos e lições da vida real
Os melhores IPOs: histórias de sucesso que inspiram
Microsoft (1986): do software à dominação mundial
A Microsoft fez seu IPO em 1986 a $21 por ação. A empresa era jovem (fundada em 1975), mas tinha uma estratégia clara – se tornar o principal fornecedor de software para computadores pessoais, que estavam começando a invadir escritórios e lares. O fundador Bill Gates era jovem, mas sua visão era clara e a longo prazo.
Hoje, uma ação da Microsoft vale cerca de $400 (dependendo do momento). Investidores que compraram em 1986 e mantiveram por mais de 35 anos obtiveram um retorno superior a 19.000%. Mas lembre-se, em 1986, era impossível prever que a Microsoft dominaria por mais de 30 anos e continuaria a ser uma das empresas mais lucrativas do mundo.
Amazon (1997): uma empresa deficitária que se tornou um império
A Amazon fez seu IPO em 1997 a $18. A empresa estava em déficit, não havia clareza sobre se alguma vez seria lucrativa. O fundador Jeff Bezos ignorava investidores e analistas que exigiam lucratividade, dizendo que o crescimento a longo prazo e a conquista de mercado eram mais importantes do que o lucro imediato. Muitos céticos achavam que isso era loucura.
Hoje, uma ação da Amazon vale cerca de $3.000 (também dependendo do momento). O retorno é superior a 16.000% em 25+ anos. Este é um dos melhores exemplos de como uma visão a longo prazo e disposição para suportar perdas superam céticos e analistas de curto prazo. A Amazon se tornou não apenas uma loja online, mas também um provedor de serviços em nuvem e uma das empresas mais influentes do mundo.
Google (2004): uma empresa "superavaliada" que atendeu todas as expectativas
O Google fez seu IPO em 2004 a $85. A empresa já era lucrativa no momento do IPO (o que é raro), mas as pessoas e os analistas diziam que o preço era muito alto. Muitos especialistas financeiros afirmavam publicamente que o Google estava superavaliado e que o preço iria cair. Eles recomendavam "vender".
Hoje, uma ação do Google vale cerca de $2.600+. O retorno é superior a 3.000% em 20 anos. O Google mostrou que mesmo que o preço de avaliação inicial pareça alto no momento do IPO, uma boa empresa que domina seu mercado e tem um valor único pode facilmente justificar e superá as expectativas mais ambiciosas.
Os piores IPOs: lições com falhas
Uber (2019): a expectativa de um milagre, a realidade das perdas
A Uber fez seu IPO em 2019 a $45. A empresa era muito popular na cultura, todos pensavam que seria o próximo Amazon ou Google, o próximo grande sucesso da história do mercado de ações. Os investidores estavam cheios de otimismo e FOMO. Mas no primeiro dia, o preço caiu abaixo do preço da oferta. Continuou a cair ao longo dos meses e anos.
A principal razão: a Uber estava queimando dinheiro muito rápido, perdendo dinheiro em cada trimestre. Os investidores começaram a exigir lucratividade, mas a empresa não conseguiu alcançá-la, apesar de todas as promessas. Hoje, a Uber é negociada entre $70-80 (um retorno de apenas 55-78% em 5 anos), mas muito abaixo do que as pessoas esperavam em 2019. Isso mostra que popularidade e hype não garantem um IPO bem-sucedido e lucratividade.
WeWork (2019): um IPO que nunca aconteceu
A WeWork estava prestes a realizar um IPO em 2019 e se tornar o próximo unicórnio, avaliada em dezenas de bilhões. Mas no último momento, isso foi cancelado – a empresa retirou a solicitação. As razões são múltiplas: o nível de perdas era incrivelmente alto (a empresa estava perdendo dinheiro em cada espaço alugado), o CEO Adam Neumann tinha muitos conflitos de interesse (ele possuía prédios que alugava à WeWork, criando um enorme conflito de interesse), e o modelo de negócios era duvidoso (o serviço era apenas aluguel de espaço de escritório, nada revolucionário ou inovador).
Se esse IPO tivesse ocorrido, os investidores teriam perdido enormes quantias. Isso mostra que mesmo no último momento, um IPO pode ser cancelado se os riscos e os problemas forem muito evidentes.
Pets.com (2000): um exemplo clássico da bolha da internet
A Pets.com fez seu IPO em 2000 durante a bolha da internet a $11 por ação. A empresa vendia produtos para animais de estimação online. No primeiro dia, o preço subiu para $14 devido ao FOMO (medo de perder a oportunidade de investir na internet). Mas a empresa estava queimando dinheiro muito rapidamente, não tinha um caminho para lucrar, o tamanho dos pedidos dos clientes era baixo e o custo de frete era alto.
Após alguns anos, a empresa faliu completamente. Investidores que compraram a $11-14 perderam 100% de seu dinheiro. Este é um exemplo clássico de como uma bolha especulativa e o hype coletivo levam a um colapso e perda total do capital.
Conclusão: Como começar a investir em IPOs de forma inteligente
O IPO é uma ferramenta poderosa que permite que as empresas cresçam rapidamente, contratem os melhores talentos, invistam em inovações e permitem que os investidores acumulem riqueza participando de empresas em crescimento. Mas também é uma ferramenta que pode enganar iniciantes que não entendem os riscos ocultos e os conflitos de interesse.
Principais conclusões sobre IPO:
Primeiro, o IPO não é uma garantia de sucesso da empresa ou de rentabilidade dos investimentos. Há tantas IPOs fracassadas e empresas que não atenderam às expectativas quanto há bem-sucedidas. Em segundo lugar, o preço no primeiro dia de negociação muitas vezes não reflete o valor justo da empresa. A demanda é especulativa, baseada em FOMO e comportamento de manada, e não em análise fundamental dos indicadores financeiros. Em terceiro lugar, o lock-up cria um risco específico – quando insiders começam a vender após seu término e o preço cai de 30-50%. Em quarto lugar, a assimetria de informação trabalha contra novos investidores – insiders sabem mais do que você sobre os problemas da empresa. Em quinto lugar, os conflitos de interesse sugerem que muitos participantes do IPO (o banco de investimentos recebe uma comissão maior com um preço alto, o CEO teme a queda do preço das ações, investidores iniciais querem maximizar sua receita) estão trabalhando contra seus interesses na busca por um preço justo.
Se você deseja investir em IPOs, faça isso devagar, com pequenas quantias (que você pode se dar ao luxo de perder), e somente em empresas que você realmente entende e acredita a longo prazo (5-10 anos). Não siga a manada e não caia em FOMO (medo de perder uma oportunidade). Faça sua própria pesquisa. Leia o prospecto do início ao fim, analise os relatórios financeiros de vários anos, observe os concorrentes e seus indicadores, e avalie o valor justo. E lembre-se: os melhores investimentos geralmente são aqueles que ninguém espera e que o mercado subestima. A Microsoft em 1986 não era uma escolha óbvia para os investidores. A Amazon em 1997 parecia loucura para investidores conservadores. O Google em 2004 era considerado superavaliado pelos analistas. Mas todos eles atenderam e superaram as expectativas de investidores que acreditavam em seu potencial a longo prazo e tiveram a paciência de manter as ações por décadas.
O IPO não é um jogo de azar, se você abordar a questão de forma inteligente. É uma oportunidade de se tornar acionista de uma empresa em crescimento em sua fase inicial de desenvolvimento como corporação pública. Use essa oportunidade com sabedoria, analise, pense a longo prazo e você poderá criar uma riqueza significativa.